Eram nove horas da noite e ela saía da faculdade com uma amiga quando foi surpreendida pela chuva. As duas foram correndo até o carro. “Pronto, descobri que meu sapato tem um furo”, dizia rindo do imprevisto molhado. Em uma casa, não muito próxima, a chuva na janela não desconcentrava a menininha que tentava redigir sua primeira redação. Mordia a língua, quebrava a ponta do lápis, mas não desistia. Escrever era seu sonho.
Ao mesmo tempo, uma adolescente iniciava seu diário com os dizeres “eu adoro dormir com som de chuva”. Lá perto, uma turma saía animada dançando na chuva. Adoravam cinema. E junto, uma jovem sonhava com o dia em que daria um beijo apaixonado regado pela chuva. Sempre sonhadora, achava ser culpa do signo.
Num bairro mais afastado o homem embalava o berço de sua filhinha que ouvia atenta os pingos no chão. Tão linda, com o sorriso da mãe e os olhos do pai, ele só pensava no quanto aquele momento valia. Ao mesmo instante, a professora terminava de corrigir as provas dos alunos. Notas boas, professora satisfeita. Ensinar era seu sonho.
Enquanto isso, no leito, uma senhora de muita idade admirava a fisionomia de seu marido. Acabara de perceber que a convivência os tornara gêmeos. Recordou de quando o encontrou, de quando se beijaram na chuva, das cartas de amor, de seus tempos de professora. Lembrou-se dos amigos queridos, sempre bem dispostos. Recordou da filhinha quando pequena, de quando aprendeu a escrever e da faculdade. Naquele momento, às nove horas da noite, o som da chuva parecia de orquestra. Sentiu ter ouvido a palavra “gratidão”. Sorriu. Fizera da vida algo bom. Era justa e digna. Fechou os olhos. Chovia forte. Seu último suspiro foi o mais feliz.